Fazia, at� ontem, tr�s meses e meio que n�o colocava um peda�o de carne (e por carne, entenda-se qualquer cad�ver - bixo morto) na boca. Claro que n�o posso garantir, para mim mesmo, que n�o comi nenhum resqu�cio de animal. Almo�o em bif�s executivos, por mais que me esforce, devo ter engolido algum peda�o de defunto.
Note-se que n�o como carnes mortas, mas carnes vivas continuam no card�pio.
Foram �timos esses tr�s meses e meio. As refei��es eram leves, e apesar de sair de algumas deles bem satisfeito, o peso do buxo (v�sceras, est�mago, intestino) n�o permanecia por 2 horas como em uma refei��o carniceira. Convicto que retirar animais da dieta foi uma das melhores escolhas que j� fiz, ontem realizei meu �ltimo teste: fui a um rod�zio de sushi.
“Mas Sushi??. Ga�cho come Sushi??”
Ga�cho come muitas coisas. E apesar de n�o sermos faz�es de peixe, a culin�ria japonesa adentrou nossa terra h� um bom tempo.
� de conhecimento popular que churrasco � extremamente pesado: Maminhas, picanhas, salsich�o, cora��ozinho, costela, costel�o, lingui�a, lombo de porco, costela de porco, galeto, ripa, polar, bohemia, skol. Meu est�mago, j� um pouco acostumado com o vegetarianismo, n�o ia suportar comida desse tipo. Ent�o o teste iria at� valer para carnes, mas para peixe que � muito mais leve n�o.
“Mas que man� teste � esse?” - Nerdzinho maloqueiro pergunta.
Eu queria confirmar por experi�ncia pr�pria, que apenas comemos carne por costume, cultura. Nosso organismo n�o parece ser preparado para digerir animais. E ontem verifiquei isso com a pr�pria barriga.
No rod�zio do Sashiburi (excelente por sinal) est�o presentes os mais variados tipos de sushis e sashimis do mundo nip�nico. E h� tr�s meses e meio atr�s, esse restaurante estava entre meus TOP 3. Assim a experi�ncia iria expor as modifica��es ocorridas em mim.
Entrando no estabelecimento, j� senti a diferen�a. O cheiro de peixe era terr�vel. Parecia que eu estava nalguma peixaria podre do s�culo XV (nem tanto, mas era ruim). Comecei com um misoshiro (sopa de queijo tofu com cebolinha) e uma t�bua de shimeji (cogumelos na manteiga). Logo ap�s vieram alguns rolinhos primavera de legumes, e muito gengibre na conserva (para o p�s-janta/pr�-sono). Tudo muito bem, tudo muito bom. Ent�o o vel�rio come�ou. Os defuntos vieram dispostos e muito bem decorados no seu barco f�nebre. Sashimis, makis, temakis, uramakis, niguiris, e assim vai. “Bueno” pensei, “N�o vai ser um peixe morto que vai me derrubar” e com meus hashis (aqueles palitinhos nada pr�ticos) em m�os avancei sobre o sashimi de salm�o. A� uma conclus�o interessante: o que 4 meses atr�s fazia eu chegar ao orgasmo gastr�nomico, ontem o sashimi n�o passou de um tro�o frio, gorduroso e fibroso na boca. Parecia que tinha comido um daqueles brinquedinhos pra nen� morder, de pl�stico com �gua dentro. Decep��o (por n�o sentir o mesmo prazer) /Satisfa��o (pelo teste funcionar). Fui para o meu segundo na lista - Skin: arroz com uma tira de peixe defumado com pele, envolto em uma fita de alga e uma esp�cie de mel. De novo o que era uma del�cia passou a ser algo extremamente p�trido (na real, pelo sentido, esse adjetivo n�o cabe aqui - mas sua fono-sem�ntica cabe) .
Depois de experimentar aqueles peda�os de cad�veres decoradinhos em cima de bolinhos de arroz, me senti como se tivesse sa�do de uma churrascada de domingo. A cabe�a e o estrombo pesaram e fiquei at� um pouco tonto. Precisava de ajuda. N�o por acaso, vi fios de cenoura e de nabo no barquinho f�nebre. Avidamente, me traquei nos vegetais com bastante shoyo. Isso me aliviou um pouco. A gar�onete perguntou se desej�vamos mais alguma coisa. E o que me salvou a noite foram os sushis de couve-flor fritas, de br�colis e outros com shimeji que chegaram em seguida.
N�o suei frio de noite, nem cheguei a vomitar. Mas o trabalho que foi dado ao digestor (sistema) foi grande. Imagino o que seria de mim se tivesse ido a uma galeteria. N�o ia faltar tinta na porcelana.
Big Earl
Ainda n�o achei minha nave

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