Apesar do Roberto Pompeu de Toledo não pertencer a este blog, quando eu li a coluna dele dessa semana na veja, vi o nosso estilo copiado retratado(modéstia à parte, vou deixar pra vocês julgarem). Eu sei que a maioria dos nossos leitores é informada e lê revistas. Mas não posso deixar passar a genialidade deste ensaio, então vou reproduzir aqui no PB na íntegra pra vocês.

Morrer ou não morrer?
Eis a questão

Cenários de como seria o mundo, a partir
de uma
premissa de Salvador Dali

Todo o problema, para Salvador Dali, tinha origem em Júlio Verne. A tese foi desenvolvida numa entrevista da década de 60 à jornalista Yvette Romi, da revista francesa Le Nouvel Observateur, e seguia esta linha de raciocínio:

“Por causa de Júlio Verne, estamos condenados a morrer como insetos. Verne queria conquistar o espaço e ir à Lua. Para quê? Não há nada a ganhar nos outros planetas. Em lugar de desperdiçar energias em conquistar o espa�o, o esfor�o cient�fico devia se voltar para o c�digo gen�tico, a hiberna��o. Descobrir um meio de n�o morrer. Importante � ressuscitar, n�o ir � Lua. Portanto, cada vez que algu�m morre, � por causa de J�lio Verne”.

Dal� tinha 62 anos na �poca da entrevista. A corrida espacial vivia seu momento mais acentuado, e fazia parte da guerra fria entre as duas superpot�ncias, Estados Unidos e Uni�o Sovi�tica. Dal� era meio extravagante, como se sabe, e, mais ainda do que ser, gostava de parecer extravagante, mas reconhe�a-se que tinha um ponto: a ci�ncia, ent�o como agora, realmente n�o concentra seu foco na quest�o da imortalidade. A medicina faz avan�os e prolonga a vida, mas da imortalidade propriamente dita n�o cogita. Digamos por�m que cogitasse. E digamos que o desejo expresso pelo artista catal�o tivesse boas chances de realizar-se. Alguns pontos, ocultos no racioc�nio do pintor, precisam ser esclarecidos, para que imaginemos como seria o mundo uma vez instaurada a imortalidade.

Em primeiro lugar: revogada a morte, seriam tamb�m revogados os nascimentos? Hip�tese um: n�o. Os nascimentos continuariam a ocorrer. Ao fim deste ano de 2006, 140 milh�es de beb�s ter�o nascido no mundo. Suponhamos que a imortalidade entre em vigor desde j�. Nenhum desses 140 milh�es morrer�. E tamb�m nenhum dos 140 milh�es que nascer�o nos anos seguintes, supondo, num c�lculo conservador, que a m�dia permane�a a mesma. Ao fim de dez anos, em 2016, 1,4 bilh�o de pessoas se acrescentar�o � atual popula��o mundial de 6,6 bilh�es. Ou seja: seremos 8 bilh�es. As presentes previs�es, feitas com base num mundo em que ainda se morre, � que esses 8 bilh�es s� seriam atingidos em 2026. Com o banimento da morte, chegaremos a eles dez anos antes. Em 2050, sem mortes, mas com nascimentos, saltaremos para mais de 12 bilh�es, quase o dobro do que somos neste 2006 ? e basta de n�meros. J� deu para comprovar o que estava claro desde o in�cio: o mundo conheceria uma crise de superpopula��o de propor��es avassaladoras.

N�o haveria alimento nem moradia, muito menos trabalho para tanta gente. E logo tamb�m come�aria a escassear o espa�o, depois de as popula��es terem se instalado em cada floresta dispon�vel, cada ilha, cada deserto. O planeta ficaria apertado como �nibus na hora do rush, com gente pendurada nas bordas. Uns se voltariam contra os outros. Os melhores c�rebros seriam convocados para descobrir algum meio de retomar as guerras, em desuso desde que a aus�ncia da morte as tornou impratic�veis. Enfim, povos e governos se engajariam num clamor cont�nuo e desesperado para que a morte fosse restabelecida (dos outros, de prefer�ncia). O colapso seria inevit�vel. A menos que… A menos que o sonho de J�lio Verne fosse desengavetado e, em regime de urg�ncia, se retomasse a explora��o do espa�o, com o objetivo de encontrar planetas onde alojar os excedentes da superlotada Terra.

J� se v� que, considerada a hip�tese um, a tese de Dal� descreve uma par�bola de boomerang e acaba por voltar-se contra si mesma. Hip�tese dois: os nascimentos tamb�m seriam suspensos. � o mais l�gico. Uma vez que o ciclo biol�gico foi interrompido numa ponta, que o seja tamb�m na outra. Os habitantes da Terra tratariam de encontrar um modo de conviv�ncia uns com os outros, e cada um com o vizinho chato, o colega ciumento e o parente intrat�vel, pois estar�amos condenados a tolerar uns aos outros pela eternidade afora. N�o haveria morte mas tamb�m n�o haveria renova��o, nem uma �nica e escassa cara nova despontaria no planeta, o que tende a conduzir a um t�dio asfixiante, mas, v� l�, a aus�ncia de morte compensa.

P�e-se uma quest�o, por�m: suspensos os nascimentos, estaria igualmente suspenso o sexo? � justo pensar que sim. Por um tempo, talvez ainda permanecesse a pr�tica do sexo por divers�o. Mas, considerando-se que a continuidade das esp�cies, a lei primeira dos seres vivos, teria perdido a raz�o de ser, � de prever que os mecanismos pelos quais se processa tal continuidade tenderiam ao decl�nio e ao definhamento. Pela l�gica da evolu��o, teria lugar a atrofia dos �rg�os reprodutores. Mais um pouco, e � de imaginar que desaparecessem tamb�m as diferen�as entre homem e mulher, irmanados ambos os antigos g�neros numa consist�ncia pr�xima � dos anjos. Eis aonde nos levou a tese de Dal�: um gambito pelo qual trocamos a imortalidade pela ren�ncia ao sexo. Vale a pena? O(a) leitor(a) est� convocado(a) a se dedicar a pensar no assunto. No fim de ano, tempo de festas e de f�rias, sempre se arranja um tempinho.

Roberto Pompeu de Toledo - Veja

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