Indo pra aula, diga-se de passagem atrasado, ainda meio abobado por causa do sono, fui parado por um bando de alunos da biologia com a seguinte pergunta: “O que tu achas do morcego?”. Pego assim de sopetão, não soube o que dizer. Saí pela tangente com uma divergência até elegante “Não tenho nenhuma opinião formada a respeito de morcegos”, porém ainda achando a resposta fraca, falei a seguinte besteira “Acho rato mais nojento que morcego.”. Francamente, isso é resposta que se dê a qualquer pergunta? A não ser que ela seja “Qual entre esses dois é mais nojento?” e mesmo assim a resposta seria “Rato”.

Devemos sim ter opinião sobre tudo, ou então formá-la quando nos é requisitado. Senti-me tão envergonhado que decidi escrever aqui o que penso sobre morcegos, apesar de achar difícil que alguém daquela turma leia o post.

Morcegos são animais muito fascinantes. Primeiro eles são os único mamíferos que se alimentam de sangue. Pensando assim rapidamente, lembro apenas de dois outros bichos que comem sangue: sangue-suga e o mosquito. Além disso a forma de se locomover é única, com duas características curiosas: são capazes de voar por conta própria, e o mais interessante, não utilizam a visão para isso. Emitindo um som de alta freqüência pela boca, e captando a reflexão do som nos obstáculos, ele calcula com o seu pequeno cérebro a rota para evitá-los e segue adiante. Claro que comparando o vôo de um pássaro com o de um morcego, o primeiro é muito mais elegante. Morcego sempre parece que está meio bêbado e histérico.

Ao pensar em quão desenvolvida é a audição de um morcego, comecei a analisar os nossos sentidos e o tanto que a visão se sobressai aos outros. O nosso mundo é quase totalmente visual. Vemos televisão, lemos jornais, livros, revistas, vemos fotos, nossos celulares possuem câmeras de 1, 2, 5, 10 megapixels. Uma vez que outra ouvimos música, não raro prestamos pouca atenção ao que um amigo fala. Até a opção de selecionar uma gravação de voz no meu celular chama-se “Visualizar”. Desvalorizamos nossos outros sentidos. Se a audição já é preterida em favor da visão, imaginem o olfato e o tato. Esses só são lembrados quando estamos na presença íntima do sexo oposto ou quando estamos desconfortáveis com o ambiente. O paladar até se salva, pois ele é essencial na hora de saborearmos aquele pedaço sem vida, assado e suculento de animal em cima da mesa de jantar.

“Permita-te, por um momento, privar-se daquilo que achas essencial e encontrará a resposta por outro caminho.”

Big Earl