Percebi, durante toda a minha vida, que o lado esquerdo do meu cérebro era maior que o direito. Devido à uma estrutura muscular altamente desenvolvida e pernas flexíveis, isso nunca foi problema para mim no campo esportivo. Esta deficiência, porém, sempre me dificultou em alguns aspectos, particularmente no campo das artes visuais.

É sabido que o lado direito é responsável pelo processamento de sinais em nosso cérebro, e como o meu lado esquerdo do cérebro (que convencionei chamar de Canhoto Espaçoso) ocupava muito da minha caixa craniana, algumas das funções destras começaram a ser prejudicadas. Nenhum sintoma havia aparecido até meus 12 anos de idade, quando finalmente a limitação volumétrica se viu presente.

Começou com uma disfunção visual, tardiamente diagnosticada como miopia. Meu cérebro direito, subjugado à um canto do crânio, se viu obrigado a desligar a função anti-blur, de modo que eu via tudo borrado. Esta limitação me causou transtornos de ordem temporal e manifestações de excessiva bondade: atrasava porque não pegava o ônibus, porém pegava coisas que só quem sofre deste mal pegaria. Com a graça de Deus meu problema foi resolvido adquirindo um co-processador visual externo, que executa a função que meus neurônios negligenciaram. Uso eles apoiando no nariz e prendendo nas orelhas, e muitas meninas acham isso muito charmoso.

Meus problemas infelizmente não cessaram por aí. Minha carência do lado direito me impedia de fazer sucesso musicalmente. Juro que tentei aprender a dedilhar uma velha viola, mas ritmo de facto não era meu forte. As cadências musicais eram tantas e tão imprevisíveis que operar um instrumento mais complexo que uma chave-de-fenda era um desafio insuperável para mim. Me sentia o próprio Happy Feet… sem o sapateado.
Percebi logo que as ciências exatas me fariam justiça… e se não sabia cantar, que manifestasse as virtudes de uma mente serial (não-killer) embelezando os textos com a lógica divina. Acessando uma extensa base de dados vocabular e combinando corretamente as palavras, os textos fluem, fazem pensar; talvez não emocionem como uma ópera, uma sinfonia… cada um cada um.

E finalmente ficou explicado o porquê dos maravilhosos textos dentro de um layout questionável.