ebeggar.jpgEu não gosto de mendigos, mas nem por isso saio por aí tacando fogo neles ou espancando em paradas de ônibus nem nada. A mendicância é algo chato e que me incomoda, por isso resolvi investigar, classificar e catalogar estratégias de mendicância que tenho me deparado durante minha vida em uma métropole. Para isso irei inferir alguns axiomas nos quais minhas constatações irão se basear:

1 - Mendicância dá dinheiro

Dá mais dinheiro, inclusive, que muita profissão por aí. Com um pouquinho de cada um, em um local com bastante movimento, é possível arrecadar uma boa quantia. O quanto será este valor depende muito da estratégia de mendicância utilizada.

2 - As estratégias de mendicância são constantemente inventadas, testadas e aprimoradas

Isso é fácil de perceber, irei descrever em seguida como surgem as estratégias de mendicância e como elas vão se alterando durante a vida de alguém que trabalha neste ramo de atuação. É claro que estas estratégicas não ocorrem sob planejamento prévio, mas sob pressão do meio.

Exemplo : Vida e Obra do Sr. Mendigo

O Sr. Mendigo nasce pobre, é indesejado e já começa a pedir antes mesmo de dar seus primeiros passos. No colo da mãe ele circula pelos automóveis parados no semáforo; por entre os panos nos quais está enrolado ele vai tendo sua primeira lição de mendicância. Neste estágio ele tem papel passivo, sendo utilizado pela sua mãe como ferramenta de apelo emocional.

E o bebê mendigo vai se desenvolvendo, adquirindo na sarjeta muito mais anticorpos que uma criança necessita, dormindo ao relento ou embaixo do viaduto, comendo a sobra e pedindo… A criança já aprendeu a falar? Sua capacidade de dicção já chegou no “trocadinho Tio?” ? Então a sinaleira passa a ser a opção, nela as crianças disputam as moedinhas com as mães com crianças no colo, com os limpadores de pára-brisas e com os malabaristas de semáforo ou estátuas pedintes.

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Estas últimas especializações citadas são o próximo passo: pré-adolescentes já não funcionam bem se não sabem fazer nada: eles têm de mostrar serviço. Aquelas moedinhas venham talvez para evitar que o moleque suje o vidro que está limpo com a esponja umidecida na poça, é uma possibilidade. Talvez seja pelo contrangimento de observar 5 criaturas a formar uma pirâmide humana realizando peripécias com a calota de um carro, e nem abrir o vidro. A moedinha, para alguns, conforta a consciência, pode parecer de uma crueldade sobre-humana não distribuir sequer uma moedinha através do vidro elétrico de um carro importado.

Qual seria uma boa estratégia então?

Voltando a questão, citei até agora algumas poucas estratégias de mendicância, acredito eu que não as melhores. Essas estratégias são geralmente utilizadas pelos mendigos mais espertos, que se especializaram nas maneiras mais rápidas de ganhar dinheiro. Para obter melhores resultados é necessário fugir do comum. Duas estratégias vencedoras:

1) A mentirinha do pobre garoto: Essa já ví muito por aí. Sempre a mesma historinha mal contada: “não sou daqui, fui roubado, só preciso de 5 reais para pegar meu ônibus, bla bla” - tudo isso regado a lágrimas de crocodilo. Como deve rir o infeliz daqueles que se compadecem com sua suposta situação. Ingênuos.

2) A coação “disfarçada”: Pelo que percebi até agora, coação disfarçada de mendicância é a melhor estratégia possível, não para o coagido, é claro. Mas o que melhor ilustra esta condição que os flanelinhas, que inundam a cidade faça chuva ou faça sol. Alguns faturam uns poucos trocados, são aqueles que se mantém distantes, fazem um sinal e dizem “bem cuidado, dr.” . A esses relegamos o troco do restaurante, até os pagamos com gosto quando a rua é escura, nos parece até que realmente estão a prestar um serviço. Mas os que enchem os bolsos são os que fungam no cangote do motorista, os que tem o preço tabelado, os que não garantem a integridade do veículo no caso de não pagamento. Esses faturam em cima do medo, entre 10 reais e uma pintura nova, qual escolher? Talvez se queixar ao bispo.

Outra submodalidade é a de chegar comprimentando as pessoas, como se fossem amigos de longa data. Dificilmente alguém ignora uma pessoa que se prosta a sua frente com a mão estendida. Essa aproximação inesperada choca, acreditem. E nesse atordoamento, com um pouquinho de pressão, se tira mais um troco do cidadão atônito que por vezes acredita estar até correndo perigo. Paga para sair daquela situação inesperada. Todos estão preparados para negar tudo “Não tenho nada”, a não ser que a pessoa seja retirada de sua zona de conforto, que lhe tenham invadido seu espaço.

Finalmente

É triste constatar isso, mas é verdade. Tente estar preparado, pois estas estratégias irão lhes cruzar o caminho. Doe seu dinheiro se e somente se assim o desejar. Ainda que eu aconselhe a não fazê-lo. Aí é que entra o “evolutivamente estável”. Estratégias evolutivamente estáveis só vingam se derem resultados, mendigos só existem porque são pagos. Se ninguém pagá-los eles pararão de pedir, simples assim. E vão morrer? Provavelmente não, as pessoas tendem a encontrar um solução de sobrevivência. Procure ajudar de verdade as pessoas, dê-lhes um emprego, ajude uma instituição de caridade. Vamos parar de obrigar nossos pedintes a quebrar a cabeça tentando nos arrancar uns trocados.

PS: Blogueiros!!! Não se tornem mendigos virtuais, trabalhem, não esmolem links esperando pela compaixão alheia. Isso é muito chato, e eu já disse que não gosto de pedintes?