Acordei com a intenção de escrever o melhor post de todos os tempos. As idéias pululavam em minha mente. Pensei em algo metafísico, transcedental, algo que tocasse o coração. Foi aí que lembrei de uma estorinha que reunia tudo isso e mais um pouco. Ela começa com o pessoal marcando aquele bate-bola no domingo.

Tava quase tudo certo com o jogo, quadra marcada, adversário definido. O time estava escalado e entrosado, era mais um show de bola garantido. Do outro time pouco sabíamos, eles eram conhecidos do nosso lateral, que só fez uma observação: “é tranquilo, só cuidem com o centroavante… que ele é trombador!”. Pude escutar de relance a tática do trombador “Não toca a bola pra mim não” - dizia o trombador - “Toca no zagueiro que eu aperto ele.” Gelei. Não por medo do tal cara, que isso eu nunca tive. Antes mesmo da bola rolar já antevi o desastre: na nossa zaga tinha o Cecchin. O Cecchin media 2 por 2 e tinha a fama justificada de não economizar na força. Eu não diria que ele era um cara mau, mas a virilidade futebolística era uma de suas virtudes. Por isso ele era amado pela torcida e odiado pelos adversários (inimigos, como ele ressaltava). Eu vi sangue.

A bola rolou e o jogo se encaminhava bem, eu cuidava para reter a bola no meio-de-campo e evitar os lançamentos do time adversário. Em um contra-ataque, porém, a bola foi lançada no espaço vazio, entre o tal do trombador e o nosso querido ignorante. O que se seguiu me fez lembrar da ritualesca luta dos bisões na tundra siberiana: Os dois bateram de frente, e quando baixou a poeira tudo que se pode ver foi um tentando levantar o outro e se desculpando e tal, um exemplo de civilidade. E aquilo me deixou encucado, de onde vinha toda essa etiqueta, essa polidez incomum a seres daquela estirpe?

Foi aí que me ocorreu a verdade, a revelação me veio em um lampejo de super-consciência: eles haviam se reconhecido. Ambos se viram refletidos no outro, seres da mesma espécie - e se identificaram mutuamente - o ignorante e o trombador. Perceberam que em um mundo de meias habilidosos e atacantes ciscadores, a falta de habilidade e a truculência os uniam.

Futebol quase sempre é só futebol, mas aquele jogo mostrou que se buscarmos aquilo que nos une, que nos torna membros de um mesmo grupo e não só o que nos transforma em inimigos ou adversários, aí poderemos ter paz no futebol e quem sabe no mundo inteiro.

Ps: meu time ganhou no final.