Tudo começou antes de nascer. Mas naquele tempo era só intrasangüíneo. Quando cheguei ao mundo pude experimentar de verdade minha primeira droga. Foi espetacular. Aquele gás encheu meus pequenos pulmões e eu me senti vivo. Nunca mais pude viver sem ele e sou viciado até hoje. Quando me privam desta maravilha me sinto mal, um tanto quanto asfixiado. Descobri mais tarde que ao inalá-lo bastante e bem rápido, dá uma bobeira e uma felicidade incrível. Claro que se exagerarmos pode-se desmaiar. Mas qual o problema em desmaiar? As vezes é até bom.

A segunda substância que me viciei mas por pouco tempo, pasmem, foi minha mãe que me ofereceu a primeira e todas as outras vezes. Essa eu ingería, e já vinha quente. Me dava uma fome absurda e eu ficava tão alucinado nas primeiras vezes que chegava a machucá-la. Mas ela queria tanto que eu experimentasse aquilo todos os dias que não se importava. Quando fui aprendendo a usar, meus momentos ingerindo ficaram mais tranqüilos e nós nos sentíamos muito conectados. Mas depois de 1 ano minha mãe achou melhor fazer com que eu parasse de utilizar aquela droga que ela me fazia com tanto carinho e me forçou a usar outra que vinha em pó. Foi algo difícil. Passava noites em claro chorando, ela misturando aquele pó estranho na água e me obrigando a beber. No início era horrível pois eu ainda estava dependente da outra. Mais tarde, como toda droga, acostumei, e passei toda a minha infância com ela.

Um pouco mais tarde conheci outro pó branco. Bem mais grosso só que muito mais doce. Me dava uma energia inimaginável e podia ser combinado com quase tudo. Meus pais não deixavam eu ingerí-lo puro, precisava estar misturado com outros produtos. Só que descobri que praticamente todos os produtos o possuíam, o que me fez ficar mais aliviado: balas, bolos, doces, bebidas, e por aí ía. Só que esse veio com efeitos não muito construtivos pra mim. Essa droga quando ingerida em excesso causava um acúmulo grande de tecido adiposo principalmente em torno do abdômen. E o pior era a mais viciante de todas as que eu já provara.

Consegui largar desse pó só quando o substituí. Minha nova droga, eu então na pré-adolescência, também era muito difundida e achava-se em qualquer lugar. Tinha vários tipos e as vezes ingeríamos sem ao menos saber. Ela era normalmente uma pasta que conseguíamos de animais ou vegetais. Era vendida em tubos que usávamos para cozinhar outros alimentos. Ou em caixas onde eram amarelas e passávamos no pão. Mas o ápice do seu uso era nas constantes reuniões de fim-de-semana quando juntávamos nossa família inteira para consumí-la. Vinha em pedaços de animais e as vezes socada dentro de saquinhos os quais assávamos. As pessoas ingeríam avidamente até estufar o estômago. Sem saber dos problemas que ela poderia causar eu me divertia, afinal todos o faziam. Quando fiquei sabendo que vários morriam por causa dela, e que poderia fazer muito mal, comecei a pensar: vale a pena ter tanto prazer por tanta dor?

Enquanto não resolvia essa questão continuei consumindo, só que desta vez tentando me controlar. E depois vieram mais e mais. Não paravam de aparecer drogas na minha frente. Umas líquidas - amarelas e esupmentas - que me deixavam feliz mas sem controle de mim mesmo, outras enroladas em papéis que em vez de me darem energia como a primeira que provei, me entupiam o peito, me deixando tonto e tossindo. Essas eu não entendia porque usavam.

Hoje vejo diversos amigos e conhecidos tentando se livrar de seus químicos. Não entendo o porquê. Sempre convivi com os meus e escolhi aqueles que me fazem bem e desisti dos que me fazem mal. Tenho a impressão de que sem os químicos eu não conseguiria viver. Mas também me dei conta de que não é só dos químicos que sou dependente. Sou dependente de gente, sou dependente de animais e de plantas. Sou dependente do mundo e creio que em certo nível, ele também depende de mim.

Ainda não criaram clínicas para acabar com essas dependências. Que continue assim.