O seguinte artigo sobre trabalho e lavoro foi escrito por Vitor Cecchin, estudante de Direito da PUCRS e de Engenharia de Computação da UFRGS.

Ao longo da história, percebe-se uma clara convergência do lavoro e do trabalho. Mas eles não são a mesma coisa? Não. Explico. Lavoro é aquilo que o homem faz, aquilo que produz para seu sustento enquanto animal carente de recursos para sua sobrevivência, como por exemplo arar a terra, plantar, pescar, caçar, etc. Por outro lado, trabalho vem a ser a produção intelectual do homem enquanto animal racional sem visar ao seu sustento, ao seu consumo físico e à sua existência como animal. Dessa forma, trabalho mostra-se algo elevado, diferenciado, fruto da percepção da realidade sob o pilar da racionalidade humana. São as artes em geral, a tecnologia, a matemática, a filosofia.

Platão realizando seu trabalho

Na antiguidade clássica, predominava o regime de escravidão. Quem era abastado o suficiente para ter uma ou duas dúzias de prisioneiros de guerra não precisava se preocupar com nada: os escravos plantavam, colhiam, lavavam as roupas de seus senhores, mantinham a casa limpa e cozinhavam. Nesse contexto, com o que podiam se preocupar? Restavam-lhes atividades nobres, os chamados trabalhos, para ocuparem o seu ócio senhoril entre os mandos e desmandos sobre os infelizes capturados. Assim, cantavam, compunham músicas, pintavam quadros, estudavam engenharia e matemática, filosofavam. Daí que surgiu a idéia moderna que eram vagabundos, de vida ganha, que podiam passar as horas do seu dia dessa forma, como bons viventes. Em parte isso é verdade. Entretanto, em sua época, os conceitos de trabalho e lavoro estavam completamente separados, inclusive com nichos específicos da sociedade encarregados da realização de cada um deles. Já se nascia pré-destinado a realização de um deles, mas apenas a um deles.

Os séculos foram passando, o mundo foi se transformando, e o capitalismo burguês floresceu como a nova realidade. As revoluções liberais pregavam a igualdade entre os homens, ostentando a bandeira da liberdade individual. Com isso, a família se torna o núcleo principal da sociedade, sendo o homem, pai de família, o responsável pelo seu sustento. Fortalecem-se as relações de trabalho, e o uso do salário como forma de remunerar a energia desprendida pelo trabalhador. Não há mais castas sociais imóveis. Nesses tempos, um homem é o que tem, o que consegue receber em troca de sua energia vendida ao seu empregador. Vê-se, aqui, a convergência do trabalho e do lavoro. O homem agora deve se valer de sua habilidade racional para receber salário para obter os recursos necessários para seu sustento. Não há mais ninguém para realizar o lavoro, ele próprio está condenado a fazê-lo. Enfim, não há mais tempo para o trabalho puro e simples. Precisa gastar sua energia e sua intelectualidade para receber cada vez mais recursos em troca.

Quanto receberei em troca?

Essa é uma tendência com cada vez mais força em nossa realidade. Quem mora sozinho ou recém casou sabe o que é viver sem empregada ou a mãe em casa para fazer todo o trabalho doméstico. Cada vez mais as mulheres disputam o mercado de trabalho, colocando em extinção a “mamãe dona-de-casa”. E isso faz com que surja a necessidade de todos ajudarem nos afazeres de casa, desde o filho lavar a sua própria louça até o marido que cozinha para sua família.

Diante disso, não sobra tempo para o puro e simples trabalho. Não temos mais tempo de ler, de cantar, de pintar, de compor, de filosofar, de ficar deitado sobre a grama olhando para o céu tentando alcançar os confins que a visão alcança. Estamos irremediavelmente presos à rotina, à luta do dia-a-dia pelo nosso ganha-pão. Faculdade de manhã, trabalho à tarde e curso à noite. No tempo que sobra, dormimos. Tudo em nome do acúmulo de recursos, de nos aperfeiçoarmos para que cada hora da nossa preciosa energia gasta seja mais bem paga. Há um mal-estar em se parar para ler, pintar, cantar e filosofar, uma espécie de sensação de tempo perdido. Afinal, por que razão perder tempo fazendo alguma coisa que não traz nenhum “retorno $$$”? É isso que nós vemos hoje, a imagem do trabalhador brasileiro, sempre muito ocupado para momentos de cultura, com sua energia sendo totalmente sugada pelo “lavoro disfarçado de trabalho”.

Enfim, novos tempos.