Conversando com um amigo dia desses, chegamos à seguinte questão:

Por que trabalhamos 8 horas diárias?

Uma primeira resposta seria: porque esse é o limite definido por lei. A seção II do capítulo II do título II (ah, o Direito) da CLT - Consolidação das Leis de Trabalho - discorre sobre a jornada de trabalho. O artigo 58 diz:

Art. 58 - A duração normal do trabalho, para os empregados em qualquer atividade privada, não excederá de 8 (oito) horas diárias, desde que não seja fixado expressamente outro limite.

Certo, então podemos refazer a questão:

Por que trabalhamos no limite?

Excetuando-se os casos em que o trabalho realmente completa a vida de um indivíduo, quando entedemos e batalhamos por uma causa, quando trabalha-se por puro prazer - o que, infelizmente acontece com muito poucos de nós - a resposta para essa pergunta é uma das duas:

- Por que queremos receber o maior salário possível na função que exercemos.

- Por que se não o fizermos, outro irá fazer, e assim corremos o risco de não fazermos mais nada.

Se um empregado trabalhar a metade do tempo, ele tem direito a um salário proporcional ao cargo exercido. Na CLT, chama-se essa situação de regime de tempo parcial, prevista também no artigo 58:

Considera-se trabalho em regime de tempo parcial aquele cuja duração não exceda a vinte e cinco horas semanais. 

§ 1º - O salário a ser pago aos empregados sob o regime de tempo parcial será proporcional à sua jornada, em relação aos empregados que cumprem, nas mesmas funções, tempo integral.

Não é interessante para nenhuma empresa ter empregados que trabalham metade do tempo. Elas teriam que contratar outro pra exercer a mesma função na outra metade. Isso envolve mais custos. De qualquer forma, são poucos os que gostariam de ganhar metade. Eles precisam do salário integral para pagarem todas as contas e ainda conseguirem comprar um C4 ou uma Ford Ranger, uma TV de plasma, IPhone, MacBook, etc. Nem que para isso eles precisem abdicar da metade do seu dia, da sua vida.

Não é uma conspiração do modo como a pensamos. Não existem um grupo de pessoas arquitentando o sistema para que ele funcione assim. Mas ele entra em equilíbrio dessa forma. O indivíduo trabalha todos os dias esperando que chegue o fim-de-semana para ter um tempo para si. Trabalha com afinco para comprar a TV mais moderna, chega todos os dias no fim do dia, para que, no tempo que lhe resta, assista àquela fina televisão.

Já diziam nossos avós:

Cabeça vazia é a oficina do diabo.

Não é interessante que a pessoa pense e que seja criativa intelectualmente. Não é importante que ela fique com sua família. Ela precisa trabalhar e trabalhar, para consumir e consumir, com a infelicidade de nunca se dar conta que isso não a leva a nada. Isso faz parte do Problema, sábias palavras de Rafael Slonik:

A porra do Problema é que todo mundo quer ficar rico, 95% da população quer ter muito dinheiro para cagar sobre todos os que tem menos dinheiro. Se as pessoas apenas desejassem ser felizes, se parassem de correr atrás da merda da riqueza ilimitada, o mundo seria melhor.

Por favor, que não me chamem de preguiçoso, vagabundo ou sem-terra. Lavoro é importante e trabalho mais ainda. O que me intriga é que lutamos e batalhamos durante anos e anos de nossas vidas para termos o direito de aproveitá-la. O que me pergunto é: não deveríamos ter esse direito agora?